Arquitetura: A PRANCHETA E O CANTEIRO
(Arq. Luiz de França Roland)
Arquitetura é a atividade cultural humana que, valendo-se de processos tecnológicos disponíveis, tem como objetivo a organização dos espaços fechados e dos espaços abertos necessários ao desempenho das demais atividades humanas.
Entendo por espaços fechados aqueles que se referem às edificações, abrangendo as suas variadas tipologias. Por es-paços abertos entendo aqueles que, como meio ambiente culturalmente modificados, são necessários ao desempenho de ativi-dades humanas exercidas fora das edificações.
Na organização dos espaços fechados e na organização dos espaços abertos, a arquitetura abrange todos os elementos necessários ao acerto desses espaços.
Assim, além das edificações em si, a arquitetura abrange, na organização dos espaços fechados, a concepção da deco-ração ambiental e todos os objetos que fazem parte e são necessários à organização da edificação.
Na organização dos espaços abertos, a arquitetura abrange todos os detalhes urbanísticos, paisagísticos, bem como os objetos e construções que fazem parte e complementam os espaços abertos.
A Arquitetura preocupa-se, em especial e prioritariamente, com a qualidade de vida das pessoas, levando-se em con-sideração a construção, a conservação e a recuperação do patrimônio cultural edificado e do meio ambiente. E, fundamental-mente, como voltarei a falar mais adiante, Arquitetura é obra construída. Não é arte e não é ciência, é obra.
Se eu afirmo que arquitetura não é arte e não é ciência, é necessário que fique claro o que eu considero que seja arte e o que seja ciência.
Os engenheiros, genericamente, se consideram cientistas e atribuem aos arquitetos a qualidade, geralmente aceita por estes, de serem artistas. Esta visão tem, acentuadamente, condicionado as práticas da engenharia civil e da arquitetura. Essa dicotomia entre arte e ciência tem condicionado os trabalhos realizados na prancheta pelo arquiteto e no canteiro de obras pelo engenheiro civil.
Benedetto Croce, no seu livro “Breviário de Estética” faz a pergunta: o que é arte? E responde com uma afirmação, no mínimo curiosa mas que ele considera como não sendo destituída de sentido: “arte é aquilo que todos sabem o que seja.”
Acredito que se não ficar estabelecida uma mesma linguagem no diálogo entre as pessoas dificilmente ocorrerá um entendimento entre elas. Proponho, então, que se considere como sendo “arte” qualquer ponto de ruptura no avanço do co-nhecimento. Em outras palavras, não somente o canto gregoriano, ou a música de Erik Satie, contém significado artístico co-mo, por exemplo, a roda, o zero, o teorema de Pitágoras e o transistor são eventos artísticos. O canto gregoriano, a música de Satie, Pitágoras, a roda, o transistor e o zero significaram rupturas no avanço do conhecimento. E, tão importante quanto essa verificação, o momento da ruptura, quem provoca a ruptura, o evento artístico, se identifica como sendo artista. Portanto, artis-ta pode ser qualquer ser humano, arquiteto, engenheiro civil, matemático, ou qualquer outro ser pensante. Desde que eles fa-çam arte, que provoquem rupturas.
Por outro lado, nesse contexto, ciência não é uma entidade particularizada. Ciência nada mais é do que um comporta-mento. Ninguém faz ciência. Fazemos, por exemplo, arquitetura, engenharia civil, matemática etc, assumindo um comporta-mento científico. Repito, ciência não é uma entidade isolada, autônoma. É simplesmente um comportamento. Qualquer que seja a pessoa, incluindo o engenheiro e o arquiteto, que assume esse comportamento, e enquanto tal, é um cientista. Não há distinção, no âmbito da arte e da ciência, entre engenheiro civil e arquiteto.
Voltando à conceituação do que seja arquitetura faço outra citação. Enrico Tedeschi no seu livro “ Teoria da Arquite-tura”, afirma: a arquitetura enfrenta uma complexa situação cultural universal e procura (supõem-se) cumprir sua tarefa. Deve resolver uma quantidade de problemas que surgem das necessidades das edificações, do entorno em que devem se situar, das técnicas e dos materiais que podem ser utilizados, das necessidades econômicas e sociais que deve satisfazer. As soluções não podem se dar separadamente, pois a obra arquitetônica deve ser um organismo unitário como todo organismo deve ser. Por outro lado, o arquiteto deve ter uma idéia dos recursos especiais e plásticos (estéticos) que o permitem realizar sua arquitetura. Deve ter uma idéia da escala com a qual a edificação expressará melhor sua sensibilidade para a solução dos problemas dos usuários e sua relação da sua arquitetura com o entorno.
Todavia, o fato do arquiteto lidar com a estética não o transforma, só por isso, num artista. Repetindo, não existe ne-nhuma atividade humana que possa prescindir da estética.
Acredito que já podemos entrar no tema da minha exposição: A PRANCHETA E O CANTEIRO.
Carlos Fayet, diplomado no curso de Pintura na Escola de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é ar-quiteto e urbanista diplomado pela mesma Universidade, afirma: o que interessa na arquitetura é aquilo que se vê. ARQUI-TETURA É OBRA CONSTRUÍDA. O projeto, a prancheta, é uma etapa e não a mais importante. Para o arquiteto, o canteiro é mais importante. É no canteiro que a arquitetura se consubstancia.
A atividade do arquiteto não é somente a de projetar, não se limita a prancheta, ele deve ser também responsável pela execução da obra. Nisso Carlos Fayet é radical: pessoalmente, ele entende que o arquiteto deveria ser proibido de somente projetar.
Para ele, Fayet, o arquiteto que projeta deve ter a obrigação de dirigir a obra, ou, pelo menos, de se responsabilizar por ela, transferindo este serviço, se for o caso, para outro profissional da arquitetura, sob sua supervisão. Na medida em que isso aconteça, o arquiteto deixa de ser, para parte considerável da sociedade, o que é hoje: um profissional supérfluo e na maioria das vezes, inutilmente dispendioso. Um enfeitador de edifícios.
A maior parte da arquitetura no Brasil ainda é realizada sem a participação do arquiteto. Na Espanha, afirma Fayet, a participação do arquiteto no canteiro de obras é obrigatória.
Todavia, essa idéia de colocar o arquiteto no canteiro de serviço não é uma idéia generalizada, nem exercida pela maioria dos arquitetos. As escolas de arquitetura não dão ênfase a esse aspecto. Tudo está voltado, no ensino da arquitetura, para o projeto e principalmente para seu componente estético. O que diz respeito à construção está voltado para viabilizar, informar, preparar ou fazer projeto, resolvido na prancheta, e não para responder pela execução.
Robert Auzelle, no seu livro “O arquiteto”, bate na mesma tecla: O canteiro de serviço é o lugar onde toma corpo o trabalho do arquiteto e onde se faz arquitetura. O arquiteto exerce com plenitude seu ofício no canteiro de obras. De modo que, o arquiteto deve, com efeito, assistir aqueles que irão traduzir suas idéias, convencer os indecisos, escutar as queixas, as obser-vações, as censuras, ouvir as explicações das soluções possíveis e decidir, aceitando e assumindo plenamente todas as respon-sabilidades.
Edgar Albuquerque Graeff, outro profissional de destaque no cenário da arquitetura brasileira, complementa: “o arqui-teto funciona como agente principal do processo de realização de um edifício. É o autor da obra. Cabe ao arquiteto, portanto, coordenar e orientar a organização dos dados que fixam a realização da obra. Cumpre-lhe filtrar exigências, selecionando-as, excluindo algumas e sugerindo outras. É esse o poder do arquiteto: selecionar e escolher os meios de edificação e de interpretar as necessidades concernentes ao edifício. Esse poder faz do arquiteto o responsável maior pelas qualidades da obra de arquite-tura. E é daí que decorre o peso da sua responsabilidade social, como autor de obras que afetam direta e impositivamente a vida dos membros de uma comunidade.
Walter Gropius, arquiteto de nome internacional, conhecido de vocês todos, Diretor da Bauhaus, não deixa por me-nos: “enquanto o ensino da arquitetura girar apenas em torno da prancheta corre-se o perigo de formar um pseudo projetista. Pois é inevitável que a falta de experiência prática no canteiro de serviço leva o arquiteto a cair no modismo e nos clichês esti-lísticos. O arquiteto deve participar, na prática, no canteiro de obras, das diferentes fases do processo de construção.
Como acima foi dito, nem o sociólogo se absteve de dar sua contribuição. José Carlos Garcia Durand, na sua Disser-tação de Mestrado, ele propõe que o arquiteto deve pensar em termos de realidade atual, dominando as possibilidades tecnoló-gicas de cada época, os materiais e os processos construtivos. Esse conhecimento é obtido pelo acompanhamento de todas as etapas da construção e pelo exame, no canteiro de serviço, do projeto inicial realizado na prancheta.
Para complementar esta fase da exposição, menciono o artigo do meu ilustre professor de grandes estruturas, Enge-nheiro Civil José Carlos de Figueiredo Ferraz. Em seu artigo, publicado no Jornal O Estado de São Paulo, em 01 de março de 1970, ele já afirmava: …convenhamos que os limites que separam os campos de trabalho do arquiteto e do engenheiro civil não podem ser considerados uma linha rígida, demarcando duas zonas impermeáveis; mas sim uma faixa fronteiriça larga, cuja tonalidade se esvaece suavemente quando se a transpõe, como sói acontecer com todos os setores de atividades profissionais.
Continua o professor Ferraz, a própria história é testemunha deste fato: a engenharia, como atividade específica pró-pria, nasceu há cerca de dois séculos, diluída que era então na arquitetura, na arte militar e na arte naval. Referimo-nos, dizia Figueiredo Ferraz, naturalmente, à engenharia tal como a entendemos hoje, não obstante a designação engenheiro se empregas-se já na Idade Média, para indicar o construtor da maquinaria bélica e das fortificações, atividades estas que, na época, se en-tendia como “ingenia”.
Já a arquitetura, como definição de um campo de atividade, remonta ao limiar da civilização, consolidando o “Archi-tectus” da Roma antiga uma posição profissional das mais respeitadas.
Tudo era tarefa do arquiteto, afirma o Engenheiro Figueiredo Ferraz. Da concepção até a obra acabada. Isto ao longo do corredor da História. As obras eram dotadas de solidez, estética, cumprindo a intenção funcional do arquiteto.
Os arquitetos dominavam, plenamente, os materiais de construção da época, logrando execuções grandiosas, legítimos testemunhos da época, desafiando os tempos para chegar até nós. Lidavam com materiais dos mais rudimentares, como a pe-dra, a madeira, a cal, a argila e o betume. Eram dotados de um senso estético apurado; e empregavam métodos construtivos ainda hoje correntes.
Os arquitetos gregos faziam revelar a espontaneidade de formas, as nítidas proporções geométricas, a harmonia e técnicas construtivas singulares. Buscavam exprimir a composição fundamental por regras numéricas exatas, onde se repetia certo módulo e se usava a média proporcional.
Ainda nas palavras do Engenheiro Ferraz: embora, supõe-se, a abóbada não lhes fosse desconhecida, os arquitetos gregos empregavam a falsa abóbada: laje de pedra que se superpunha em balanço, até vencer parte do vão, sendo o restante transposto por uma arquitrave.
Os arquitetos romanos, herdeiros do acervo grego e etrusco, foram bem além: abandonaram o método etrusco da cons-trução em abóbada, com o emprego de pedra, a juntas vivas, que exigiam grande rigor de confecção e limitavam os vãos; e passaram a empregar o método construtivo apreendido dos persas, aperfeiçoando-o para a execução dos grandes vãos.
Os arquitetos romanos foram os precursores do concreto. O método construtivo por eles empregado em nada difere do atual. Os arquitetos romanos já conheciam a “linha de pressões”.
A arquitetura românica e, particularmente, a gótica nos dão uma medida exata da grandeza do arquiteto medieval no canteiro de obras.
Imperava então a intuição, aquela maravilhosa e profunda intuição estrutural do arquiteto que, com pesar, vimos pos-teriormente diminuir.
Quando a Revolução Industrial apresentou novos materiais: o ferro, o aço perfilado, o concreto armado, os pré-moldados, aguardando por uma utilização racional, o arquiteto não deu resposta à nova realidade. O arquiteto se postou passi-vo, inerte, ausente, um espectador daquela evolução técnica e artística em marcha acelerada.
Foi então que os engenheiros passaram a ocupar, no canteiro de obra, a posição que sempre coubera aos arquitetos.
Com o passar dos anos onde estavam os arquitetos? O que faziam? O que pensavam?
O que acontecia no Brasil?
De início nada. Nem mesmo havia escolas de arquitetura. A Politécnica de São Paulo, depois de um curso básico, formava engenheiros arquitetos com mais três anos curriculares.
Porém, com o tempo a arquitetura brasileira despontou. Nascia uma arquitetura e definhava a arte de construir. O arquiteto brasileiro estava, cada vez mais, voltado à prancheta, afastava-se da obra.
Estava rompido infelizmente aquele elo tradicional, milenar: ARQUITETO & OBRA.
Essa tarefa seria, então, do engenheiro civil, diziam; e cada vez mais os arquitetos se enclausurariam na prancheta. Pairando distante do pragmatismo, longe do produto acabado, a razão última de todo o seu esforço: a obra arquitetônica.
Lúcio Costa salientava inutilmente: a arquitetura é, antes de mais nada, construção.
Colocou-se, então a questão de que ao arquiteto cabe decidir: permanecer na sua prancheta, desprezando o canteiro de serviço enquanto obra de arquitetura – e ver assim prejudicada sua criação – ou reagir. Reagir, abraçando-se também à tecno-logia e dominando o canteiro de serviço, ver no futuro o testemunho do seu trabalho arquitetônico.
No encaminhamento deste texto procurei apresentar a idéia de que ao arquiteto cabe o controle do canteiro de obras. Tentei evidenciar que não é possível a separação entre a prancheta e o canteiro de obras. Não existe bom projeto sem o domí-nio do sistema construtivo a ser adotado no canteiro de serviço. O profissional da arquitetura não conseguirá elaborar um bom projeto se desconhecer as práticas do canteiro de obras.
Outro pecado mortal que permeia a prancheta e o canteiro é aquele que busca consubstanciar a arquitetura a partir de seu componente estético, artístico. Estou convencido que isso é um erro. A sociedade como um todo e o engenheiro em parti-cular, costumam afirmar que o arquiteto é um artista, busca a estética, e o engenheiro é um cientista, busca a praticidade. É um equívoco.
É verdade que a boa arquitetura não pode prescindir do componente estético, como é verdade, também, que nenhuma outra atividade humana o deve fazer. Não existe boa engenharia que seja capaz de prescindir da estética; nem a boa medicina, nem a boa advocacia, nem a boa culinária, nem o bom magistério, ou seja, nenhuma atividade humana a ser considerada, qual-quer que ela seja, pode prescindir do seu componente estético.
De sorte que, a prancheta não é nem mais e nem menos um instrumento da preocupação da estética do que o canteiro de obras. A prancheta é um instrumento de trabalho da concepção, e mesmo vindo a ser substituída por um artefato moderno, como o computador, por exemplo, o arquiteto não pode prescindir do controle do canteiro de obras.
Concluindo, não é fundamental o nome que se atribua ao profissional que faz arquitetura. Seja denominando-se arqui-teto, engenheiro civil, mestre de obras, ou outro nome qualquer, para ocupar e comandar o canteiro de obras, esse profissional tem de, necessariamente, ter formação arquitetônica.
Não basta ter atribuição legal, é necessário ter competência profissional. Essa afirmação é fundamental para o exercí-cio da arquitetura e vale para qualquer profissional, particularmente, para o engenheiro civil.
De sorte que, sendo que o lugar do arquiteto é no canteiro de serviço, se o engenheiro civil desejar, também, ocupar esse lugar ele deve ter formação arquitetônica. Em outras palavras, a formação arquitetônica é necessária para o desempenho do engenheiro civil no canteiro de obras para que ele não seja identificado como apenas um administrador de empresa da construção.
Formação arquitetônica, que se requer, implica em entender os espaços a ser organizados, fechados e abertos, não com a visão cartesiana de engenheiro: espaço de três dimensões, x, y e z, mas sim, com uma visão abrangente de arquiteto em que o entendimento do espaço implica, além das três dimensões citadas, na consideração das demais dimensões: a do odor, a do som e a da atmosfera particularizada.
Não me sinto a vontade ao pensar que essa pendenga profissional, existente entre os arquitetos e os engenheiros, ve-nha a ser resolvida obedecendo as regras do jogo democrático, isto é, que a vontade da maioria prevaleça e seja traduzida pelo voto. Todos nós sabemos de que lado pende a maioria e o quanto de maldade é subjacente aos processos de votação.
Espero que o entendimento entre as partes em conflito se dê pela via do entendimento, do consenso, do socialismo, não apenas pelo voto majoritário, seja no sistema Confea/Creas, seja no Congresso Nacional. Que não nos fixemos no dogma-tismo estéril das idéias preconceituosas. A praxis na arquitetura deve prevalecer e a solução da questão deve contemplar o bom senso.
Por fim, tudo o que foi proposto para a arquitetura dos espaços fechados, vale para a arquitetura dos espaços abertos. De sorte que, falar em “Engenharia de Tráfego” é uma heresia. Sistema viário é canteiro do urbanismo.
Luiz de França Roland
é arquiteto e urbanista.
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