Comportamento desejado diante de uma situação estética vivida

Sempre que uma atividade humana é dada à luz, acorrem, ao considerá-la pelo seu componente estético, tomadas de posições pessoais, tanto por parte daqueles que são considerados especialistas, assim como daqueles que são considerados leigos, numa diversidade tal que se torna quase impossível, a quem se coloca como espectador, optar por uma interpretação conseqüente a sua própria posição.
Sem atender às intenções daquele que gerou o evento, o que, de fato, na quase totalidade das vezes, é impossível, cada interpretador analisa o acontecimento considerando-o vinculado as suas preocupações particulares, circunstância essa que, em razão das diferenças pessoais, dá origem a um emaranhado de juízos responsáveis por incertezas generalizadas.
Sabemos de antemão qual é a reação externada por aqueles que se colocam frente a uma interpretação baseada em fundamentos teóricos de uma atividade para eles desconhecida (interpretação de uma peça teatral, por exemplo). Ou o espectador digere passivamente em seco a interpretação proposta, ou conclui, por desconhecer os fundamentos teóricos particulares sobre os quais se baseou a interpretação, que “não nasceu para a arte”. Ninguém se sente tranqüilo em campo que lhe é estranho.
Todavia, interpretar em definitivo um dado evento, observado a partir de seu conteúdo estético, é empreitada que requer pouco esforço, desde que o interpretador se limite a reproduzir o que o autor anteriormente tenha tornado público; por outro lado, pela inexistência de recursos disponíveis para ter fundamento científico, qualquer outra interpretação, das infinitas possíveis, será conjectural, subjetiva, impossível de ser atingida por todos, e desligada das causas originais do evento analisado, a menos que ocorra uma coincidência.
É necessário que se simplifique o comportamento pessoal diante das situações estéticas vividas. O que deve ser levado em conta é o que cada situação observada vale para cada um particularmente.
É desejável que se assuma, diante de cada acontecimento, uma posição crítica pessoal e que se extraia do evento analisado tudo aquilo que possa ser convertido em reforço reflexivo às próprias preocupações. Comportando-se desta forma fica aberto, para o leigo, o caminho conceitual que prescinde dos juízos especializados. Já que é impossível tornar-se especialista em todas as atividades humanas é necessário que o valor de um evento qualquer, para que não se torne inútil, possa ser captado a partir da potencialidade de quem o observa, qualquer que seja o nível de especialização do observador.
Todo evento, visto a partir de seus componentes estéticos, vale pelo que representa de reforço reflexivo para quem o observa. Assim, uma peça teatral, por exemplo, é válida para um espectador, digamos, à medida que ela exerça função de reforço para seu aperfeiçoamento pessoal, tanto no que diz respeito à sua atividade específica, como ao seu desenvolvimento entendido de maneira global, inclusive naquilo que se refere às necessidades de lazer, a despeito de ele ser ou não um iniciado na atividade teatral. Em resposta a uma eventual indagação, acrescentar-se-á, a fim de dar maior ênfase ao exposto de que “gosto não se educa”. Querer educar o gosto de alguém é querer transferir padrão de comportamento, prática essa condenável exatamente pelo fato de se constituir em uma barreira à reflexão, afora as implicações especulativas que essa transferência comporta. Entender educação como um processo (de auto-exercício), capaz de conduzir o ser humano, mediante a ação de componentes internos e externos a ele, a um refletir consciente diante de situações genéricas de vida, entre as quais se incluem, obviamente, aquelas consideradas de predominante conteúdo estético, para as quais o “gosto” é uma resposta, é uma questão que suporta uma abordagem particular que aqui não cabe fazê-la. Se o desejo de cada um é aquele de entender, de viver um evento estético, qualquer que ele seja, as indagações devem ser elaboradas, sempre, a partir de dentro de si. Dessa forma, qualquer observador desejoso de conseguir “sentir” um acontecimento estético observado, deverá questioná-lo com indagações dirigidas no sentido de aquilatar se o acontecimento observado contribuiu para acrescentar valores positivos ao seu desenvolvimento pessoal e se a situação vivida pode ser tomada como instrumento para um entendimento maior da realidade que o cerca. A resposta deve ser dirigida para dentro de quem questiona através da realidade vivida, porém, jamais da interpretação elaborada de fora, por outro. Não é necessário que um determinado acontecimento seja explicado para que se possa “senti-lo” A apresentação da dança “E Eu Disse”, de Letícia Sekyto (Sesc-16/04 p.p.), por exemplo, analisada a partir de seus muitos aspectos, valeu pela preocupação, em toda a seqüência, de garantir a sua estrutura uma organização espacial e histórica extremamente elaborada. Luiz de França Roland

Arquiteto e urbanista
(e-mail: lfroland@uol.com.br

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