Da política do silêncio à estratégia do alarido

Da política do silêncio à estratégia do alarido

Formada em Serviço Social, mestre em Sociologia da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo e doutora em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Regina Soares Jurkewicz, professora exonerada do Instituto Superior de Teologia da Diocese de Santo André, editou o livro “Desvelando a Política do Silêncio: Abuso Sexual de Mulheres por Padres no Brasil”

Regina S. Jurkewicz, em entrevista concedida à Eliane Brum, repórter da Revista Época, afirma que dedicou dois anos e meio de pesquisa direcionada à investigação das estratégias usadas pela cúpula da Igreja Católica para silenciar vítimas, proteger agressores e encobrir crimes sexuais cometidos por sacerdotes. A pesquisa, financiada pelo Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM), é parte de sua tese de doutorado.

Tentei por várias maneiras ler o livro da Professora Regina S. Jurkewicz mas não consegui. Não conheço, por-tanto, em detalhe, o conteúdo da obra, para que possa emitir uma opinião factual sobre o que está nela retra-tado. Porém, a entrevista concedida pela Professora à Revista Época é suficiente para montar o quadro ideoló-gico que abrangeu o trabalho de pesquisa e que fundamentou sua tese de doutorado.

A Professora se deteve, principalmente, sobre 21 casos denunciados pela imprensa e esmiuçou dois deles em profundidade. A partir desse estudo de caso concluiu que a Igreja Católica no Brasil se coloca acima das leis do Estado e tenta – e em geral consegue – manter os casos de violência sexual praticada por padres dentro de suas sólidas paredes.

Sobre o referido, seria importante verificar se a autora contextualiza os casos de abuso sexual de padres no universo mais amplo de violência sexual no Brasil, o que significa identificar o quanto isso representa em ter-mos comparativos à realidade nacional.

Ao ser questionada, na entrevista, porque preferiu investigar a violência sexual de padres contra as mulheres em vez de se deter na pesquisa da pedofilia, a Professora afirmou que quando se trata de assédio ou de abuso sexual contra a mulher, a primeira idéia é de que ela seduziu o agressor e, quando o agressor é um padre, envolto em aura de santidade, a mulher passa de vítima a culpada.

Pergunta e resposta não convencem. A pedofilia é um assunto, o assédio sexual é outro. Talvez a repórter estivesse se remetendo aos casos de pedofilia denunciados nos Estados Unidos da América do Norte e a Pro-fessora estivesse tentando tomar a parte pelo todo. Além disso, o argumento que culpabiliza a mulher vítima de assédio sexual, independe do agressor ter esta ou aquela escolha vocacional.

Ainda na entrevista, a Professora afirma: o padre, que abusa sexualmente de uma mulher, tem uma proteção institucional diferente dos outros homens. Para a Professora Regina, isso ocorre porque a Igreja Católica no Brasil opta pela política do silêncio, acobertando fortemente o sacerdote. Mais um problema na argumentação da assistente social: a agressão contra a mulher e o acobertamento dos agressores, correntes no Brasil, está relacionada à diferentes instituições sociais além da Igreja.

Regina S. Jurkewicz parece se escandalizar com o fato de que, fundamentada no arrependimento do padre pelo pecado cometido, a Igreja Católica lhe conceda o perdão. Outro problema no enfoque da Professora. Qualquer que seja a análise que se possa fazer, quaisquer que sejam os argumentos que possam ser utiliza-dos, esse é o único comportamento coerente que a Igreja de Cristo pode, e deve, adotar

Diante do arrependimento, para o cristão, somente pode ocorrer o perdão. Esse é o pilar básico que sustenta todo o cristianismo. É descabida qualquer outra expectativa em relação ao comportamento da Igreja diante do arrependimento de um pecado senão a concessão do perdão.

Em síntese, o conteúdo da entrevista que Regina Soares Jurkewicz concedeu a Revista Época, e, creio, que retrata o conteúdo do seu livro “ Desvendando a política do silêncio: o abuso sexual de mulheres por padres no Brasil”, se desenvolve basicamente fundamentada na ideologia: a mulher é sempre vítima e a Igreja Católica no Brasil é sempre prevaricadora.
Resta, então, perguntar sobre o discurso da Professora Regina Soares, endossado por alguns desavisados no contexto da controvertida disputa entre machismo e feminismo, quem é o responsável pelo abuso sexual prati-cado contra a mulher (ou contra o homem)? O homem, a mulher, ou ambos?

Deixando enfaticamente de lado a análise da questão através da ótica maniqueísta de bem e de mal, de pro-duzir uma vítima e um algoz, é necessário que a sociedade (homens e mulheres) aceite o fato de que é res-ponsável pela prática de abuso sexual.

O comportamento erótico explícito da mulher estimulado socialmente, quer pelo vestuário, gestos ou insinua-ções, reduz o homem a um dependente sexual incontrolável. É um confronto no qual a mulher e o homem se articulam para criar uma situação constrangedora de relacionamento humano. A sujeição sexual que a mulher impõe ao homem é milenar, bíblico. Um bom exemplo de submissão sexual praticado pela mulher contra o homem é o relato da Judite (V.T.-Livro de Judite).

Tanto o homem quanto a mulher são responsáveis por essa sujeição sexual.
A questão do comportamento sexual dos padres da Igreja Católica deve, portanto, ser encaminhada pelos lei-gos de outra maneira. Ou seja, o que é que os leigos, mulheres e homens, das paróquias católicas têm feito para erradicar as situações de risco que costumam ocorrer no relacionamento entre padres e fiéis? Quais são as medidas adotadas por mulheres e homens paroquiais para que sejam evitados os casos de práticas sexuais indesejáveis envolvendo mulheres, homens e crianças?

Elucidar essas questões pode ser o caminho para evitar os equívocos da estratégia do alarido utilizado por mulheres feministas para desqualificar o comportamento dos homens por elas considerados machistas, como se os homens fossem sempre os vilões e as mulheres sempre as vítimas.

Luiz de França Roland
Arquiteto e urbanista
Email: lfroland@uol.com.br

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