O PREÇO DO VOTO CONSCIENTE
O PREÇO DO VOTO CONSCIENTE
Todo voto, sem exceção, é consciente e todo voto, também sem exceção, tem um preço!
Algumas entidades, umas laicas, outras clericais, têm se empenhado em praticar um proselitismo duvidoso a favor do ato de votar. Imbuídas de uma pseuda autoridade, sem que se saiba a que títulos estão investidas, essas entidades, através de testemunhos, conferências, artigos, chamadas midiáticas e, até mesmo, bate-papo de esquina, tentam convencer os cidadãos a votar nos candidatos por elas escolhidos, ou, quando não, nas facções ideológicas por elas professadas.
Todo ato humano é um ato consciente. Somente os alienados agem de maneira inconsciente e os alienados estão proibidos de votar. Os vetores que condicionam um determinado ato consciente, supostamente dirigido para o bem ou para o mal, somente poderão ser avaliados a partir de uma abordagem abrangente. Toda condenação, bem como toda absolvição, são socialmente contratuais. O bem e o mal, no tempo e no espaço, são cambiáveis entre si. O que era bem pode vir a ser mal e vice-versa. Dou um exemplo: todo aborto era, no passado, tido como um crime, hoje ele é aceito como um bem. Considera-se, hoje, que o aborto atende determinadas necessidades das mulheres. De sorte que, para os fins a que se destinam, os julgamentos sobre a consciência do eleitor diante do ato de votar resulta numa inutilidade. É impossível identificar um eleitor que tenha praticado o ato de votar inconscientemente.
As mesmas entidades que conclamam os eleitores a praticar o voto consciente identificam o voto inconsciente com o voto vendido. Afirmam, portanto, que voto não tem preço. Essa conclusão é falaciosa!
Todo voto, sem exceção, tem um preço. Todo ato de votar é exercido condicionado por um afeto, não importando que o afeto seja negativo ou positivo. O preço de um voto pode ser uma cesta básica, interesses corporativos, comerciais, pode ser devido a vínculos laicos ou eclesiásticos e, ainda, entre outras infinitas variantes, o voto pode ser vendido por um simples afeto de simpatia ou antipatia dirigido a um determinado candidato. Não pode ser desconsiderada, também, a hipótese do voto ser simplesmente vendido (conscientemente) por uma importância em dinheiro a ser utilizada para o pagamento de um par de óculos, uma operação plástica, terminar a reforma da residência, ou para trocar o carro do ano. Não se pode esquecer que ética (moral) é resultado de um contrato social que se altera no tempo e no espaço. Na sociedade contemporânea o consumismo e a competição não são crimes, são práticas enaltecidas pela sociedade e exercidas conscientemente.
A prática tem mostrado que são raros os eleitores que exercem o ato de votar tendo em vista objetivos considerados altruístas. São raros, absolutas exceções, os eleitores que, ao votar, consideram, por exemplo, mais importante a erradicação da pobreza do pais do que a melhoria da sua própria renda pessoal.
Essa polêmica envolvendo o sistema político partidário e eleitoral, alimentada até a exaustão pelo solene Presidente do TSE, não conduz a comunidade brasileira a nenhum futuro promissor. É um proselitismo estéril!
O sistema de administração nacional através de partidos políticos e atos eleitorais está falido. Não prosperará jamais. É necessário que se busque outras alternativas.
Num artigo publicado em data passada, neste jornal, apresentei uma possível alternativa (Movimento Cor Azul) e afirmei que enquanto perdurar a síndrome do consumismo e da competição não haverá solução para o problema político administrativo da humanidade e, em particular, para o problema administrativo nacional. Enquanto a competição e o crescimento do PIB forem as “molas do desenvolvimento humano”, com certeza, permaneceremos chafurdados no atoleiro do “preço do voto consciente”.
Luiz de França Roland
é arquiteto e urbanista.
e.e.:- lfroland@uol.com.br